sábado, 28 de abril de 2012

Foi a última noite

Lá estava ela, mais uma vez frente à mesma janela. O vento soprava forte bagunçando os longos cabelos escuros e balançando os galhos da velha árvore que, naqueles últimos anos tinha sido sua única companhia. Muitas foram às vezes que ela abriu a boca na inútil tentativa de por pra fora tudo aquilo que a sufocava e corroía por dentro. Mas ficava ali, parada. As lembranças vinham em sua mente como um filme. Lembrava de tudo! De todos os detalhes sórdidos que há muito tempo ela queria esquecer.


Ficar livre! Esse era seu maior desejo. Livre do medo e das lembranças que a atordoavam. Dormir ou não dormir já não fazia mais a menor diferença. Os sonhos já não existiam. A dor de não poder se livrar daquele passado não sumia. E a pergunta que não calava: Pra quê continuar vivendo?

Ela já havia tentado responder essa pergunta, mas nunca encontrou nenhuma resposta que fosse convincente o suficiente. Afinal, sua vida se resumia a isso, sofrimento, e nada mais.

Com um grande esforço, pelo fato de já ser uma casa bem antiga, fechou a janela e foi deitar. Os olhos já estavam cansados, então não foi muito difícil mantê-los fechados. Uma imensidão de pensamentos lhe vinham à cabeça, e o que não saía nunca, era o de que aquela seria a última noite. Pois bem, adormeceu.

Já era de manhã, e uma dor insuportável na barriga fez com que ela despertasse. O pijama estava molhado de sangue e o lençol todo manchado. Levantou e com grande dificuldade foi andando até o banheiro, sem nem conseguir fazer uma ligação pedindo por socorro.

Enquanto estava lá, deitada no chão já coberto de sangue, as lembranças vinham em sua mente a fazendo esquecer da dor que sentia. As forças estavam se esgotando e ela já não conseguia mais abrir os olhos.

Por um instante, foi como se tudo estivesse sumido e existisse apenas ela e seus pensamentos. Então desejou lembrar do passado, o que não era nem um pouco agradável. Ela matou! Impediu que uma vida, embora indesejada, que estava se formando dentro dela, viesse ao mundo. Ela não era uma pessoa má, mas as circunstâncias a levaram a isso. Depois, quando se deu por conta que aquela vida poderia lhe fazer feliz, já era tarde demais.

E ali, naquele banheiro ficaram toda a dor, angústia e sofrimento, dos quais só ela e a velha árvore sabiam.

Jaqueline de Almeida

6 comentários:

Anônimo disse...

MUITO PROFUNDO! PARABÉNS À JAQUELINE DE ALMEIDA! VC TEM TALENTO! CONTINUE POSTANDO....

Anônimo disse...

PARABÉNS A AUTORA JAQUELINE DE ALMEIDA!
VC TEM TALENTO!
CONTINUE POSTANDO...

Anônimo disse...

Muito triste, mas bem escrito, deu pra sentir a emoção....

Anônimo disse...

que triste! é real essa história?

Jaqueline disse...

Obrigada, gente!
E não, a história não é real. Mas a inspiração sim! (:

Larissa disse...

Ai que famosa essa minha amiga :D
to orgulhosa do teu talento Jaque! Parabéns!*.*